
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
70 Guarda-chuvas e um impasse...
por Joana Salém Vasconcelos
Neste dia 18 de agosto ocorreu mais uma grande marcha em Santiago do Chile, convocada por professores, estudantes secundários e universitários, em defesa da gratuidade na educação pública chilena. Piñera encomendou chuva, e conseguiu neve! Nevou em Santiago durante 30 minutos, no bairro de Las Condes e Vitacura (os bairros mais ricos), enquanto a marcha prosseguia no centro da cidade, debaixo de muita água e de um vento polar. A sensação térmica foi de 3 graus.
Mesmo assim, 70 mil pessoas compareceram às ruas para demonstrar sua persistência de lutar por democracia real. Um oceano de guarda-chuvas. Menos faixas, e mais capas plásticas. Uma forte convicção presente: a educação gratuita é uma condição básica da democracia, e o povo chileno não vai desistir de conquistá-la. Igual, prossegue a intransigência brutal do presidente Piñera. Ontem, o Ministro da Educação, Felipe Bulnes, reafirmou a proposta do governo: fiscalizar o lucro, criar uma superintendência responsável pela fiscalização, ampliar bolsas, abaixar os juros. Leia-se: legalizar o lucro, criar um novo órgão burocrático para alojar mais um empresário da educação no governo, criar melhores condições de endividamento dos jovens chilenos. O impasse se aprofunda.
O Financiamento das Universidades
Atualmente, 40% dos estudantes universitários chilenos já não podem pagar suas dívidas. Baixar os juros, afinal, é uma medida necessária para permitir que o endividamento ocorra em condições favoráveis ao credor, do contrário serão dezenas de milhares de moratórias.
O sistema de financiamento estatal da universidade chilena é feito de dois modos: direto e indireto. O aporte financeiro direto é o dinheiro que o Estado repassa diretamente às universidades públicas. Esse dinheiro, contudo, representa somente de 30 a 40% do orçamento necessário destas universidades. O resto é “autofinanciado”, ou seja, financiado pelos estudantes. Já o aporte indireto é fornecido pelo Estado para as universidades públicas e privadas, a partir do critério de mérito dos estudantes. São 200 mil estudantes que realizam uma prova nacional, e destes somente os primeiros 27.500 (13%) receberão o aporte. Mas ele é indireto, porque o Estado entrega o dinheiro à universidade, e não diretamente ao estudante. Deste aporte indireto, cerca de 70% se direciona para as universidades públicas e 30% para universidades privadas, que não tem nenhum compromisso de transparência administrativa. O governo Chileno gasta aproximadamente 0,6% do PIB com ensino superior público. Já com educação em geral, somando todos os níveis, gasta cerca de 4% do PIB.
O que é a municipalização da educação no Chile?
A situação é ainda mais injusta com o sistema de municipalização da educação básica, vigente desde 1981. Municipalidad, no Chile, corresponde a bairro. Isso significa que cada bairro é uma unidade orçamentária que financia a educação de um pequeno local. Os bairros de classe alta possuem vastos recursos e pouca demanda de serviços públicos, enquanto os bairros de periferia possuem poucos recursos e uma altíssima demanda destes serviços. A reprodução da desigualdade social, e seu aprofundamento, é perfeitamente garantido por esse sistema, que faz com que nenhum centavo dos ricos circule fora de seus bairros. Ao mesmo tempo, os bairros pobres ficam abandonados à própria sorte, e os professores tem que se virar com recursos escassos para ensinar.
O impasse
A desigualdade educacional chilena chegou ao seu limite. Os secundaristas cantam nas marchas: “Voy repetir, voy repetir!”. Estão dispostos a perder o ano para não pagar mais pela educação. Isso pode significar um colapso parcial do sistema educacional chileno no próximo ano: não haverá novos alunos no ensino médio.
O presidente Piñera é comprometido intensamente com os setores do empresariado da educação, que mais lucram com o atual sistema. Além disso, por suas origens ideológicas comuns com Pinochet, sua postura intransigente é absoluta. Inábil e ditatorial. Não vai ceder, e ponto.
O impasse a que se chega, então é esse: um governo incapaz de avançar um passo na direção das demandas da sociedade; uma sociedade mobilizada, persistente e convicta, que tampouco vai sair das ruas enquanto não receber uma resposta efetiva de mudança. Só resta saber quanto tempo essa corda será tensionada sem arrebentar. A boa notícia é que a sociedade chilena tem a possibilidade de reconquistar a democracia, que desde 1991 está limitada ao direito de votar.
http://diretodochile.juntos.org.br/
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Estado Laico? Presidenta: pare de meter sua opinião religiosa em politicas públicas anti-homofobia!
reproduzido de Mario Frô:
Acordo e leio o excelente post do Leonardo Sakamoto sobre a pesquisa do Ibope afirmando que 55% dos brasileiros são contra a união homoafetiva. Fico me perguntando sobre a utilidade dessa sondagem: será que ela serve para assustar o restante de pouquíssimos homens públicos que ainda não se esqueceu de que o Brasil (ao menos na teoria das leis) é um Estado Laico?
Vejo retrocessos no governo Dilma como a interferência descabida de uma presidenta no andamento de uma política educacional voltada para o respeito à diversidade levada a cabo pela SECAD/MEC. A presidenta, tal qual uma diretora de escola de classe média, pressionada por tevês fundamentalistas, por uma imprensa irresponsável e cínica que dá voz e vez aos homofóbicos (vendendo essa prática como’ liberdade de expressão’), pressionada por uma base fundamentalista de deputados indigentes no Congresso, refreia o processo de elaboração de material pedagógico ‘escola sem homofobia’, afirmando que não permitirá que o governo faça propaganda de ‘opção sexual’ nas escolas.
Vejo, inclusive, deputados e senadores (em teoria eleitos por uma legenda de ‘esquerda’) não apenas fazerem vídeos convocando, mas participando da Marcha para Jesus (megaevento transformado em uma manifestação contra a aprovação do PLC122) como vejo uma militância de esquerda que deveria cobrar compromissos com bandeiras históricas dos partidos, justificando tudo isso como parte de ‘recuos estratégicos’.
Imaginem se no grande embate que este país viveu nas últimas décadas do século XIX tivéssemos Ibope e eles resolvessem perguntar aos poucos cidadãos que tinham o efetivo exercício de cidadania se eram a favor ou contra a abolição da escravatura?
Enquanto eu pensava sobre o texto do Sakamoto, @micaelsilva repassa um link para uma chamada de entrevista da cantora Sandy.
Lembrei no ato da bolinha de papel cujo primeiro tweet a respeito também me chegou via @micaelsilva e, de novo, soube que o assunto iria parar nos TTs. Tweetei:
E assim como no case bolinha de papel, em pouquíssimo tempo, o ânus da Sandy não apenas foi para os TTs Brasil como tomou o 1º lugar nos TT do Mundo.
Sandy desde que virou garota propaganda da Devassa, a marca de cerveja que adora uma campanha sexista, está repaginando sua imagem de menina doce, ingênua, pura, assexuada, para fêmea fatal e parece ter sucesso no seu intento. Como o ‘Brasil real’, aquele responsável pela maior nação de proctologistas do mundo – fiscais do fiofó alheio -, ao menos por enquanto, vem ganhando adeptos de todas as colorações partidárias, tudo em nome dos votos, dos ‘recuos estratégicos’… Graças a uma fixação anal que nem Freud explica, a promessa de construção de um verdadeiro Estado laico está indo para o saco.
Quanto ao ânus da Sandy e o restante de seu corpo ela faça o que bem entender com ele, é dela e ela tem todo o direito sobre ele. Aos demais 55% do ‘Brasil real’ e aos que por falta de coragem abandonaram a defesa de um Estado Laico, recorro à máxima do meu querido amigo, o ator Bemvindo Sequeira: “vão dar meia hora de rabo”.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Estudantes querem expulsar aluno racista da UFRGS
Em resposta às agressões racistas
Vera Rosane de Oliveira
É extremamente revoltante, em pleno século XXI, vermos “teorias eugênicas” terem veiculação em espaços produtores de opinião pública, seja na academia (UFRGS) ou em veículos de comunicação de massas. Ao dizer isto, não falo de um lugar monolítico ou em detrimento ao legítimo direito de liberdade de expressão, mas me refiro à defesa patética da concepção de “boa raça”, como sugere a eugenia ao se utilizar de termos como hibridismo e de genocídio racial, expresso por este aluno de 50 anos do curso de história da UFRGS que está causando, com propriedade, repúdio e revolta de seus colegas. Antes de tudo, enfatizo e faço questão de salientar a idade do aluno, para que não venhamos a recair no equívoco de pensar que se trata de um jovem adolescente desinformado. As expressões por ele utilizadas tem um peso histórico para toda e qualquer sociedade.
A expressão Hibridismo nos remete a ideologias racistas como as utilizadas no início do século por cientistas sociais da época; por exemplo, o médico e sociólogo Nina Rodrigues (1862-1906), que ficou famoso especialmente devido às suas teses que defendiam a radical divisão da sociedade entre raças superiores e inferiores, e a ideia de que a miscigenação racial era um dos fatores que não permitiria que o país se desenvolvesse, apresentando “argumentos” como os seguintes [1]:
“A raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestes serviços à nossa civilização, por mais justificadas que sejam as simpatias de que a cercou o revoltante abuso da escravidão (...) há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo”.
“A constituição orgânica do negro, modelado pelo habitat físico e moral em que se desenvolveu, não comporta uma adaptação à civilização das raças superiores, produtos de meios físicos e culturais diferentes”.
Ou mesmo o historiador Silvio Romero (1851-1914), o qual, inclusive, escreveu o prefácio de Africanos no Brasil, afirmando que “o negro não é só uma máquina econômica; ele é antes de tudo, e malgrado sua ignorância, um objeto de sciencia”.
Assim percebemos que chamar negros e mulatos de híbridos é antes de mais nada um desrespeito, pois não se trata apenas de fazer alusão a um termo científico entre dois organismos vivos. Ao lermos no dicionário de Relações Étnicas e Raciais o termo híbrido vemos que ele desenvolveu-se a partir de origens biológicas e botânicas, contudo, tornou-se um termo-chave na crítica cultural contemporânea. Se formos à etimologia da palavra, no latim hybrida significa originalmente o cruzamento de uma porca mansa com um javali selvagem... É a isto que este aluno respeitosamente denomina os “pardos, mulatos”? Isto é científico ou racista?
Outro elemento que me deixa perplexa é a comparação que senhor Alff faz da relação interracial ou a miscigenação com o genocídio. Dei-me o trabalho de mais uma vez voltar ao dicionário de Relações Étnico-Raciais e buscar saber a origem e significado do termo genocídio, pois cheguei a pensar que este aluno talvez desejasse falar dos 150 jovens negros que morrem assassinados a cada dia em nosso país, como diz o documentário Falcão: Meninos do tráfico. No entanto, ao ver que a etimologia do termo combina do grego a palavra genos (grupo, tribo) com latim cide (matar) e que, em 1944, o jurista Raphael Lemkin buscou consubstanciar as práticas e políticas de extermínios das nações e grupos étnicos, utilizados pelo Terceiro Reich, como genocídio [...] e ainda que, o genocídio é considerado crime perante as leis internacionais, condenadas pelo mundo civilizado e cujos autores e cúmplices são passíveis de punição; realmente, não consigo aceitar que um ser racional consiga dizer que “o interracialismo é uma forma de genocídio, ainda que involuntariamente”, a menos que se esteja perante alguém que realmente acredite que existam raças/pessoas superiores ou inferiores.
Não se trata aqui de uma defesa desenfreada pelas cotas em um momento ímpar vivido pela sociedade brasileira pós-declarações racistas e homofóbicas do “Senhor Deputado” Bossonaro ou mesmo posterior aprovação do malfadado Estatuto da Igualdade Racial, que retira do corpo do texto aprovado a obrigatoriedade das cotas e de todo e qualquer termo que faça o país lembrar sua herança escravocrata e racista. Como se ao não estar escrito ninguém saberá ou lembrará que a Sociedade Brasileira se constituiu através da herança escravocrata e que o racismo é uma prática e realidade no Brasil e no Mundo.
Antes de tudo, trata-se de dizer em alto e bom tom que a luta e resistência dos negros e negras em nosso país não se refreará diante dos racistas de plantão, sejam eles governantes, deputados, alunos, teóricos ou cientificistas, pois como diz o poema de Bertolt Brecht – “De quem depende que a opressão prossiga? De nós, De quem depende que ela acabe? Também de nós.”
Vera Rosane de Oliveira é servidora da Universidade Federal do Rio Grade do Sul (UFRGS) e militante do Quilombo Raça e Classe da CSP-Conlutas
terça-feira, 21 de junho de 2011
Zero Hora tenta desorganizar o Movimento Estudantil
Reproduzo artigo do jornalista Alexandre haubrich, do site Jornalismo B.No início deste ano, a presidenta recém empossada Dilma Rousseff foi muito criticada – inclusive aqui – por comparecer à festa de aniversário da Folha de S. Paulo, que tanto a atacou durante a campanha eleitoral. Na última semana, o mesmo problema se repetiu em outra esfera da política: o movimento estudantil.
Desde a década de 1990 o DCE da PUCRS é controlado pelo mesmo grupo político, e isso se arrasta com a conivência do Ministério Público e da Reitoria da universidade e sem nenhuma crítica por parte do Grupo RBS, que controla a comunicação no Rio Grande do Sul. Com o início de manifestações que parecem estar levando a um novo momento por lá, o jornal Zero Hora teve que fazer alguma cobertura, e a fez igualando os dois grupos: a máfia do DCE e os estudantes que lutam por democracia no Diretório. Esse tema foi tratado em um post do Jornalismo B na última semana. Pois no mesmo dia representantes dos manifestantes iam ao programa Conversas Cruzadas, da TVCOM (outra emissora do Grupo RBS), legitimar a atuação desse Grupo contra o próprio movimento estudantil combativo. Uma coisa meio mulher de malandro, que vai chorar a surra para o amigo do marido, aquele mesmo que segurou os braços dela enquanto o marido batia.
Pois o espancamento continuou. O apresentador do Conversas Cruzadas ajudou a desmontar os argumentos das opositoras ao DCE, e, no último domingo, mais um golpe: duas páginas de reportagem
Os dois textos das páginas 6 e 8 reduzem o movimento estudantil a uma eterna “briga por poder” apartada da sociedade, voltada apenas para interesses partidários. Os autores do manifesto anti-organização estudantil são Carlos André Moreira e Elton Werb. O título: “Movimento estudantil escorrega na baixaria”. O primeiro parágrafo: “Referência nas lutas sociais e políticas do país, o movimento estudantil foi notícia nos últimos meses por troca de acusações, episódios de violência e um festival de baixarias”.
Não vale a pena reproduzir mais trechos, mas o conjunto da reportagem demonstra um total desconhecimento e alienação frente à realidade do movimento estudantil. O caminho da matéria é a construção do descrédito sobre mais um espaço de participação política. Da mesma forma como ao longo de muitos anos a mídia dominante cria descrédito sobre a classe política como forma de afastar o povo das instâncias de decisão e participação, Zero Hora tenta colocar no mesmo saco pessoas e organizações que fazem do movimento estudantil uma forma de encher os bolsos e legitimar sua truculência e pessoas e organizações que fazem do movimento estudantil uma forma de luta política democrática legítima.
Sem aprofundar as contradições próprias da disputa política que, obviamente, estão presentes em um movimento político como o estudantil, a reportagem se mostra alienada e alienante. Fecha os olhos e tenta tapar os ouvidos do leitor. Torna raso um tema complexo e amplo, cria ou alimenta estereótipos e preconceitos, esvazia o conteúdo político da luta de milhares de estudantes espalhados por todo o país.
Em recente entrevista ao Jornalismo B, falando sobre a imagem que a mídia tenta criar do poder legislativo, o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), disse algo que se aplica também a esse caso: “Eu tenho a opinião de que um setor grande dos meios de comunicação tem um forte projeto pra desqualificação do poder parlamentar e representativo. Quanto mais desqualificado for esse poder, melhor pra quem tem um outro poder”. Desqualificar todas as formas de atuação e organização política é uma forma inteligente e desonesta de manter sua hegemonia e a dominação das elites políticas e econômicas, que precisam ter o povo afastado das lutas sociais para manter sua prática opressiva e alienante.
Fotos: Carina Kunze









